terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O pior dia da minha vida

Foi tudo ficando cinza, o ar de casa parado e pelo chão uma névoa branca (descrição do meu amigo palhaço Lamparina para dias ruins) Mas foi exatamente assim. Os dias passavam e a névoa deslizava pelo chão com meu caminhar. Eu estava com o mesmo pijama há mais de mês. Os cortes de cabelo dos meus filhos já haviam se perdido, suas unhas estavam grandes e eu não penteava o meu cabelo nem faço ideia. Não cozinhava, pedia marmitas para eles, não para mim todos os dias. Não atendia o telefone, não quis pegar nenhum serviço, não ligava para ninguém. Nas gavetas as roupas estavam reviradas, meias com pares trocados. Eu não ligava para nada. O cinza da minha vida aumentava e a situação começava a perder o controle, eu ficava deitada, eles vinham me chamar no quarto quando queriam comer, ou eu só levantava quando ouvia um barulho estranho vindo deles. Meu corpo pesava uma tonelada. Eu ouvia a mesma música repetidamente sem cessar nem cansar ... ( A Thousand years) eu chorava, chorava muito, a letra era de amor, amor eterno, o único amor que eu ainda tinha em meu coração: pelos meus filhos. Eu sentia remorso e culpa por tê-los trazidos a vida neste mundo tão perdido. Eu chorava. Eles só me viam chorando. Eu rastejava junto com a névoa branca que insistia em não sair dos meus pés. Não sentia fome, nem sede. Enfim tive a brilhante ideia de deixa-los bem cuidados com minhas irmãs, já que eu não prestara, fizera tudo errado na minha vida. Meu nome era um erro, meus caminhos eram errados, minhas escolhas as piores, e todos os seres humanos que conhecia na terra eram peçonhentos, abomináveis e eu sentia uma dor no coração terrível de imaginar a decepção do meu Deus com esta humanidade fétida. Nada valia a pena. Isso durou meses, eu perdi a noção do tempo, só seguia meus trabalhos de mãe. Eu sumi e parece que ninguém sentiu minha falta. O meu marido de tão atarefado diz nunca ter percebido. Minha mãe por telefone, sei lá, algo que eu disse, ou talvez algo que eu não tenha dito, despertou nela uma preocupação sobre mim.

Eu dei tudo que era meu, desfiz de tudo que estimava e em carta eu pedia para que minhas irmãs cuidassem dos meus meninos e não os deixassem sozinhos neste mundo.

Eu despedi de todos na hora do almoço, como sempre, um beijinho rápido, obedeçam as professoras eu recomendei com um forçado sorriso no rosto olhando bem dentro dos olhinhos deles.

Enfim, tirei meu pijama e nem me lembro a roupa que coloquei.
Na boca o gostinho das bochechas rosadas e doces dos meus pequenos.
Saí, não enxergava ninguém, mas estranhamente eu não trombava com as pessoas, era como se fossem todos apenas vultos.

Tomei um ônibus qualquer que me levaria a lugar nenhum.
Eu chorava, chorava muito, mas ninguém se prestou a me consolar.
Esta frieza e indiferença não era surpresa para mim, o que mais podia esperar?
Eu desci em um lugar qualquer. A passagem era tão estreita que o vácuo dos caminhões passando quase me faziam levantar voo. Eu comia poeira de estrada, mas seguia firme meu caminho.

Pensava em qualquer momento me jogar para cima de uma caminhão que  vinha em alta velocidade.
Mas isso me atormentava pois se o motorista acaso fosse uma boa alma eu marcaria a vida dele com este incidente terrível. Porém podia ser um motorista daqueles pedófilos de estrada e eu me jogar a frente de seu caminhão não faria diferença alguma. Continuei caminhando.

Avistei uma passarela bem alta, subi.
Passava muita gente por ali.
Eu chorava, chorava, copiosamente e clamava: Deus onde o Senhor está?!
Sentei-me em uma beiradinha e fiquei olhando para baixo, o fluxo dos carros já não era tão intenso.
Como cristã eu não queria fazer aquilo, afinal eu não queria ir para o inferno!!!
Como ser humano eu estava exausta, não aguentava mais tanta perseguição, traição, decepção.
Eu estava quebrada, quase não restara nada de mim.
Fiquei lá mas era como se ninguém me visse.
Chorei, chorei, chorei ... eu disse: Espírito Santo fique comigo!
Então eu comecei a me não me sentir mais tão sozinha, um calor estranho entrou no meu coração.
Enxuguei minhas lágrimas, não sei quantas horas fiquei ali, me levantei e voltei para casa.

Cheguei a tempo de vestir meu pijama e abrir a porta pros meus filhos como se nunca eu tivesse saído de lá. Fiquei feliz, extremamente feliz em vê-los novamente, abracei os dois muito forte.

Eu decidi em seguir em frente, não sabia o que viria pela frente, se algo mudaria ou o mundo continuaria sendo um pedaço do inferno. Mas eu estaria lá como uma fera a frente dos meus filhos para defende-los e ama-los por toda a vida deles.

Os dias que se sucedem a este episódio não estão sendo fáceis, já se passou quase um ano.
Só agora resolvi escrever.
Antes eu enxergava a depressão quase como uma frescurite.
Hoje eu sei que mesmo que clínica, física, é um ataque demoníaco.
Ele aproveita das nossas tristezas e decepções e nos faz acreditar nas mentiras e só ver coisas ruins.
Desde novinha eu dizia que não era deste mundo, que me sentia um ET.
Pois bem eu sou um ET e realmente não sou deste mundo, sou demasiadamente diferente das criaturas que vagam pela Terra. Eu sou uma ELEITA de Deus.
Sou pedra de passagem, luz da vida, vaso de honra.
A terapia e os remédios ainda vão bem obrigada.
Voltei a sentir algum tipo de amor, compaixão a estranhos, coisa que havia perdido totalmente.
Eu não acredito que o mundo vai mudar, mas eu aprendi a viver em um mundo diferente e não esperar das pessoas (especialmente quando elas são do mundo).
Ainda tenho dias de "pijama"- mas voltei a atender o telefone e aceitar alguns trabalhos.
Já sei que data é hoje! Já voltei a ter desejos e as coisas para mim agora fazem diferença.
Espero que minhas palavras não fiquem jogadas na rede vazias, espero que algum dia alguém que precise leia meu testemunho e eu possa de alguma forma ajudar. Vale a pena! Viver vale a pena.
Há nossos amores, nossos tesouros, nossos detalhes, nossas pequenas gigantes alegrias, acredite: o bem vai vencer!

2 comentários:

  1. pqp, como chorei...fdp estou no trabalho, ontem chorei de rir com o bico do heitor do bj, hj choro com uma coisa que vc já tinha me contado, mas que pqp como vc escreve bem...maledeta vc me paga, tô deprê...

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  2. Me deu tristeza amiga! Creio que essa não era a intenção, mas é inevitável. Se fossemos "vizinhas" eu ficaria com você todo o tempo, esconderia o seu pijama e deixaria você chorar copiosamente por algumas horas, mas depois eu te proibia de chorar de novo, assim, "mandona" mesmo e a gente ia ficar de bobeira por algumas horas!
    "Tuff" love, entendeu?
    rsrsrs
    Te adoro!!!
    bjs

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